segunda-feira, 16 de julho de 2012

Focinho


Antes de começarmos a sessão de instilação generalizada, gostaria de tecer algumas considerações (sempre quis usar “tecer considerações” faz parecer que sei alguma coisa do assunto) sobre a concretização mais espontânea e irracional da crítica: o palavrão.

Convenhamos que nada como um “táquipariu” às vezes para lavar a alma. O ”táquipariu”, talvez pelo seu caráter mais compacto, tem mais força e pujança do que o xingamento completo, é como em Portugal com o “da-sssss” em que o “fo” é eliminado completamente, que igualmente potencializa o efeito do xingamento. Talvez seja também por isso damos nomes curtos aos cachorros: repreender um cachorro chamado Lourival me parece ser muito mais difícil do que um chamado Borg. Mas enfim, estou me dispersando e isso não vem ao caso. 

Eu queria chegar mesmo era nas demonstrações de animosidade menos convencionais que, para alguns, parece ter o mesmo efeito catártico do que os palavrões mais cavernosos. A avó de uma amiga, vendo novela, gosta de proferir silabicamente e em tom de voz baixo a palavra “maldita” quando está perante uma cena daquelas em que a vilã está fazendo uma de suas maldades. Perante essa, arrisco a dizer que o negócio realmente parece estar na intensidade do ódio no momento do xingamento e se for em voz baixa é ainda pior.

O “rebento de mulher de ganho”, criação piadista do meu pai, é outra opção para quem não quer descer do salto, mas se arrisca a não ser compreendido, digo eu. Mas devo dizer que o exemplo mais estranho com que já me deparei, e que é representativo disso, é do meu querido e saudoso tio Cid. Noveleiro de plantão e levemente excêntrico, trazia à tona todo o seu ódio quando eram anunciadas as já extintas cenas dos próximos capítulos. 

Apenas a menção de qualquer dica do que estava por vir na novela o deixava em estado de pura fúria, que se concretizava em um movimento com as mãos que simulava uma tentativa de estrangulamento de um ser imaginário, apenas com o indicador e o polegar, estilo colchetes fechados, acompanhado pela misteriosa palavra que vinha do fundo da alma: FOCINHOOOOOO!

Explicações claras sobre o que ele queria dizer ninguém nunca soube ao certo. A hipótese mais provável que a família colocava era que focinho representaria um animal fuçando onde não era chamado, um ato animalesco de intromissão em assuntos que não lhe diziam respeito, um desrespeito inominável. Já o estrangulamento dispensa explicações.

Na época, do alto dos meus 7 anos de idade, ficava um tanto quanto chocada com essas cenas na sala de estar. Hoje, quando o sangue me sobe vendo certas coisas na tv, vejo a utilidade de um bom focinho proferido do fundo da alma, ou de uns bons colchetes fechados.

5 comentários:

  1. Deves tomar cuidado, pois alguns dignamente devem ser lidos como elogios. Por exemplo: "táquipariu, Leonora! Tu escreves muito bem." já era seu fã, agora serei seu leitor e fã. Bjs e sucesso,

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  2. Tá tudo Daniel? :) Fico super mega honrada de ter você como leitor, só tenho que agradecer! beijos!

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  3. Mangabeira Unger
    Parabéns pelo espaço, Leonora. Gostaria de oferecer uma contribuição. Estava vendo ontem uma entrevista do Mangabeira Unger e percebi que o cara é um patrimônio nacional. Não porque seja professor de Harvard ou por ter reconhecimento internacional como teórico social. Mas pela incrível capacidade de fazer todo brasileiro acreditar que é bilíngue. Basta assistir o camarada falando que o povão já pensa logo: Esse cara tá falando inglês e eu tô entendendo quase tudo! Atualmente, todo político enche a boca pra falar que vai aumentar a autoestima do povo. Ora, o Mangabeira consegue isso instantaneamente. E sem gastar verba pública!
    P. A. Lenha

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  4. Ai, Leonora, num guento contigo. Você não deixa a gente sem rir "bagarai" nem um segundo com estes teus posts! Bom pacas!

    Ah, e que honra citar minha digníssima avó! Estando ela perto de um computador (o que julgo demorar um pouco), mostro pra ela. Mas, ao menos, ela saberá que foi citada na internê, coisa chique!

    Saudades e beijos!
    Paula

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    1. A sua avó é uma fonte de inspiração! Que bom que você gostou das minhas tragicomédias! :) Saudades também, tenho que te entregar um negócio, vamos marcar!

      Beijos ;)

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