Antes de começarmos a sessão de
instilação generalizada, gostaria de tecer algumas considerações (sempre quis
usar “tecer considerações” faz parecer que sei alguma coisa do assunto) sobre a concretização
mais espontânea e irracional da crítica: o palavrão.
Convenhamos que nada como um
“táquipariu” às vezes para lavar a alma. O ”táquipariu”, talvez pelo seu
caráter mais compacto, tem mais força e pujança do que o xingamento completo, é
como em Portugal com o “da-sssss” em que o “fo” é eliminado completamente, que
igualmente potencializa o efeito do xingamento. Talvez seja também por isso damos nomes curtos aos cachorros: repreender um cachorro chamado
Lourival me parece ser muito mais difícil do que um chamado Borg. Mas enfim,
estou me dispersando e isso não vem ao caso.
Eu queria chegar mesmo era nas
demonstrações de animosidade menos convencionais que, para alguns, parece ter o
mesmo efeito catártico do que os palavrões mais cavernosos. A avó de uma amiga,
vendo novela, gosta de proferir silabicamente e em tom de voz baixo a palavra
“maldita” quando está perante uma cena daquelas em que a vilã está fazendo uma
de suas maldades. Perante essa, arrisco a dizer que o negócio realmente parece
estar na intensidade do ódio no momento do xingamento e se for em voz baixa é
ainda pior.
O “rebento de
mulher de ganho”, criação piadista do meu pai, é outra opção para quem não quer
descer do salto, mas se arrisca a não ser compreendido, digo eu. Mas devo dizer
que o exemplo mais estranho com que já me deparei, e que é representativo disso,
é do meu querido e saudoso tio Cid. Noveleiro de plantão e levemente excêntrico, trazia à tona todo o seu ódio quando eram anunciadas as já extintas cenas dos próximos
capítulos.
Apenas a menção de qualquer dica do que estava por vir na novela o
deixava em estado de pura fúria, que se concretizava em um movimento com as
mãos que simulava uma tentativa de estrangulamento de um ser imaginário, apenas
com o indicador e o polegar, estilo colchetes fechados, acompanhado pela
misteriosa palavra que vinha do fundo da alma: FOCINHOOOOOO!
Explicações claras sobre o que
ele queria dizer ninguém nunca soube ao certo. A hipótese mais provável que a
família colocava era que focinho representaria um animal fuçando onde não era
chamado, um ato animalesco de intromissão em assuntos que não lhe diziam
respeito, um desrespeito inominável. Já o estrangulamento dispensa explicações.
Na época, do alto dos meus 7
anos de idade, ficava um tanto quanto chocada com essas cenas na sala de estar.
Hoje, quando o sangue me sobe vendo certas coisas na tv, vejo a utilidade de um
bom focinho proferido do fundo da alma, ou de uns bons colchetes fechados.